domingo, 21 de abril de 2013

COM O ZÉ DAS PAPAS (DE BORDALLO PINHEIRO) - A HISTÓRIA DAS “CASAS DE PASTO”



Antiga "casa de pasto" - talvez dos anos 1920...

O "Zé das Papas", de Raphael Bordallo Pinheiro

ZÉ DAS PAPAS (21)

CASAS DE PASTO 

Gazeta das Caldas, 19 Abril 2013

Nas minhas andanças pela formação profissional no sec­tor alimentar tive a honra e o enorme prazer de trabalhar com verdadeiros sábios. Socorro-me, hoje, do saber de Albino André, que foi secretário-geral da AHRESP, observador privilegia­do do sector, com obra publica­da e entre ela a "Alimentação em Portugal".


Às lojas, especialmente cria­das, para nelas serem deixados e alimentados com "pasto", os animais utilizados no transpor­te dos seus donos, foi dado o nome de "Casas de Pasto", e assim passaram a ser conheci­das.

A clientela que, nessas Ca­sas, passou a deixar os animais que lhes serviram no transpor­te, formulou o pedido de pode­rem ser confeccionadas refei­ções simples. As referidas "Ca­sas de Pasto" passaram a ter uma dupla função: fornecer o "pasto" aos animais, utilizados no transporte dos seus donos e, também, pequenas refeições aos transportados, e as emen­tas foram sendo alargadas com outros produtos, além do peixe frito e do chouriço assado.

A designação de "Casas de Pasto" é uma denominação ver­nácula, que remonta aos pri­mórdios da nacionalidade por­tuguesa, ao reinado de D. Sancho I, e tem sido mantida até aos nossos dias.

O Prof. Vitorino Nemésio, em 1972, no Estoril, ao falar dos res­taurantes portugueses, para os seus representantes em Con­gresso, relatou: "quando há al­guns anos consultava os arqui­vos da Torre do Tombo, depara­ra, por acaso, com umas curio­sas referências às chamadas "Casas de Pasto", reportadas ào tempo do reinado de D. Sancho I, as quais serviam por preços módicos, refeições ao público".

Daí o seu conselho para ser mantida essa denominação tão antiga.

Foram de alguns milhares as "Casas de Pasto" abertas ao público, em Portugal continen­tal, Açores e Madeira e também no mundo que os portugueses criaram nas suas, então, colóni­as do Ultramar, desde a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Prínci­pe, Angola, Moçambique, índia (Goa, Damão e Diu), Macau e Timor (Leste).

As "Casas de Pasto" têm sido bons restaurantes, populares, onde se come bem e barato. O "pasto", donde derivou o seu nome, encontra-se, hoje, nas bombas de gasolina: os animais foram substituídos pelos auto­móveis...

Resistem, ainda, por todo o país, do Minho ao Algarve, alguns milhares desses estabele­cimentos, que continuam a manter com destaque, nas fa­chadas, a antiga denominação de "Casas de Pasto", porque continuam a exercer a mesma actividade de servir refeições à sua clientela.

De resto, nos dicionários da língua portuguesa será de inte­resse verificar que a palavra res­taurante é definida "casa de pasto categorizada"...

As "Casas de Pasto", tendo desempenhado, durante vários séculos, acção destinada a re­solver um problema do trans­porte utilizado desde o século XII, em paralelo com a resolu­ção dum outro problema, o da alimentação humana, resistem, hoje, abertas ao público e a exer­cer actividade, paralela à prati­cada nos estabelecimentos, que passaram a ser classificados "restaurantes", e posteriormen­te criados!

João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com

Corrigenda: Leitor amável fez o favor de me corrigir quanto aos tipos de bacalhau. Em Por­tugal as categorias são cinco (miúdo, corrente, crescido, graú­do e especial). Aqui fica o agra­decimento.


Entrada de um Casa de Pasto em Benfica...


Anúncio de uma "casa de pasto" de Macau...


  

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